PlaneTVet

Wednesday, Apr 23rd

Last update12:53:16 PM

Ruy Bessa Lopes

Biólogo
Professor Doutor da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA
Instituto de Ciências e Tecnologia das Águas - ICTA
Santarém - Pará - Brasil
Pós-doutorando do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, CENA-USP.    
Especialista em ecotoxicologia

Prof. Dr. Ruy Bessa. Belo Monte, passivo sócio-ambiental ou desenvolvimento?

Categoria Pai: Colunistas Categoria: Ruy Bessa Lopes Publicado em Terça, 19 Julho 2011 13:48 Rodrigo Ensinas
Cliques: 4974

 

Por Ruy Bessa Lopes. Belo Monte, passivo sócio-ambiental ou desenvolvimento?

 

A usina hidrelétrica de Belo Monte está longe de ser um consenso dentro e fora do governo assim como na sociedade civil organizada. A usina inundará uma área de 516 Km2 em um trecho de 100 km no trecho paraense Rio Xingu. Sua potencia instalada será de no pico de produção de 11.223 MW e terá uma média de quatro MW o que fará de Belo Monte a maior usina inteiramente brasileira e a terceira maior do mundo apenas atrás da UHE Três Gargantas, na China e da Itaipu binacional. É importante lembrar que atualmente, a UHE de Belo Monte é a maior obra em execução do Programa de Aceleração do Crescimento, promovido pelo governo federal.

Apenas a título de memória, a implantação de Belo Monte vem sendo negociada entre idas e vindas a mais de 20 anos. Por outro lado, a Amazônia não guarda boas recordações dos gravíssimos impactos ambientais deixados por Balbina e Tucuruí, as últimas construídas na região e que significaram o desalojamento de comunidades inteiras, inundação de enormes extensões de terra e perdas genéticas importantes de material faunístico e florístico. Por exemplo, Balbina localizada a 146 km de Manaus inundou inteiramente a reserva indígena Waimiri-Atroari e provocou uma alta mortalidade de peixes trazendo escassez de alimentos e fome as populações locais. O desastre foi tal que o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) concluiu pela morte biológica do Rio Uatumã, onde a UHE foi construída. Em Tucuruí cerca de 10 mil famílias entre indígenas e ribeirinhos ficaram sem suas terras.

No caso específico de Belo Monte destaca-se em termos de impacto a redução da vazão em áreas de corredeira, trecho de 100 km, denominado Volta Grande do Xingu, o qual será severamente afetado pelo barramento de Pimental, um dos sítios do complexo da UHE. Segundo especialistas a área de Volta Grande do Xingu é uma excepcionalidade da natureza, considerada área de importância biológica extremamente alta (Portaria n. 9/MMA, de 23 de janeiro de 2007), detentora de espécies endêmicas oficialmente reconhecidas como ameaçadas de extinção, entre estas espécies estão o pacu-capivara (Ossubutus xinguense) e o cari-zebra (Hypancistrus zebra).

Alguns cientistas brasileiros afirmam que a redução da vazão atingirá as condições de vida e de bem estar de diferentes populações indígenas: Arara (Karib), Juruna (Tupi) e Xikrin (Jê-Kayapó) e ribeirinhas que secularmente habitam a região, além de agricultores familiares que ali se instalaram após a construção da Transamazônica.
Por outro lado, a demanda por energia elétrica cresce a passos largos e a sociedade brasileira não admite mais conviver com apagões elétricos. O consumo de energia elétrica cresceu 7,8% em 2010 apenas quando comparado ao ano anterior e deve alcançar uma cifra estimada para 2019 de 829,5 TW/h. Entretanto, para boa parte da comunidade científica, especialmente a fixada na Amazônia Belo Monte é um cavalo de Tróia, pois outras barragens virão modificando para pior a vida na região.

Conciliar visões diferentes é um exercício muitas vezes inglório e sem resultados práticos, penso que o que temos que buscar neste caso é mais uma vez repensar o modelo de desenvolvimento do país, pois o que prevalece atualmente não contempla as diferenças regionais e planta no coração dos brasileiros, especialmente, os amazônidas uma sensação de desconfiança, que pode dificultar ainda mais projetos futuros, que tão somente visem manter a qualidade de vida das populações brasileiras residentes em centros mais industrializados. A quem dar razão?

Considerando as especificidades da Amazônia além do conhecimento ainda fragmentado e insuficiente que se acumulam sobre as diferentes formas de reações da natureza em suas vertentes ambientais e humanas em relação ao represamento em suas bacias devemos atender integralmente e sem restrições, as garantias exigidas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA) para que projetos estrategicamente importantes para o Brasil como Belo Monte e de outros reservatórios hidrelétricos futuros possam ser viabilizados com maior justiça social e ambiental para que possamos garantir a segurança energética de um país continente como o nosso.

PlaneTVet na rede

Sobre Nós

O PlaneTVet é o maior portal áudio-visual de meio ambiente e animais do Brasil. Um espaço de educação ambiental rico em informação, conteúdo diferenciado, com programas semanais, reportagens e notícias. Conteúdo de credibilidade transmitido de forma massificada para profissionais das áreas afins e para população em geral.

Fale Conosco

Você está aqui: Home Colunistas Verônica Moraes Só depois de criar, vou castrar!