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Artes de pesca e tecnologia da captura

Introdução

A pesca é um desporto tão antigo como a caça, tão velho quanto a humanidade; é, ainda, sem dúvida, a mais antiga das indústrias humanas. É quase certo que os povoados primitivos foram constituídos à margem das águas salgadas ou doces e viveram principalmente dos produtos da pesca.

Ao que parece o homem fóssil, ao fim do período quaternário, praticava a pesca de água doce, do mesmo modo que a marinha. Nas grutas, tais como as de Baoussé-Roussé, perto de Menton, encontram-se restos de peixes: um osso de Thynnus, um maxilar de Labrax lupus, esqueletos de Scioena aquila.

6.1 Características das artes de pesca

A arte de pesca desenvolveu-se no período paleolítico, com a invenção do anzol, que a princípio era reto, com duas pontas cortado em osso, numa concha de moluscos ou fabricados com espinhos. Esse instrumento não tardou a se aperfeiçoar; no período neolítico, encontramos o verdadeiro anzol recurvado, que era preso a lianas ou a espécies de cordas feitas com as tripas de animais. E, na idade do bronze, toda a série de anzóis de todos os tamanhos que conhecemos hoje, eram usados.
Todas as variedades de redes utilizadas ainda em nossos dias estavam em uso então: redes de superfície, redes flutuantes, redes de arrastão amarradas em barcos, redes fixas de fundo, redes de espera, tarrafas, caniço, linha solta ou de vara, espinhel armadilhas como covo, puçá, etc. Com o progresso da navegação, verifica-se o desenvolvimento da pesca.

6.2 Confecção das artes de pesca

A época do apogeu do período neolítico, o homem fiava e tercia o linho. Fabricava corda e confeccionava redes; também a arte e a indústria de pesca tomaram um impulso considerável. As redes dessa época eram em alguns pontos semelhantes às nossas: como flutuadores, fragmentos de casca de pinheiro; como chumbo, pedrinhas: as malhas eram quadradas, grandes para a captura de certos peixes, menores quando se tratava de espécies pequenas.

* Médico Veterinário, Chefe do Centro de Pesquisas Ictiológicas “Rodolpho von Ihering”, do DNOCS - Caixa Postal 423 - 60.035 - Fortaleza, Ceará, Brasil.

Os utensílios de pesca são confeccionados com fibras naturais e/ou material artificial. As fibras têm que se apresentarem com as seguintes características: a) resistência ao manuseio da pesca; b) durabilidade; c) suportar constantes imersões na água; e d)suportar constantes exposições ao sol.

Os fios de origem natural utilizados na pesca pertencem ao grupo dos seguintes vegetais: sisal, manilha, canhono e algodão.

Os fios artificiais ou sintéticos surgiram pela primeira vez em 1889 com o nome de seda artificial. Em 1938 os americanos descobriram o “nylon 66”.

As armadilhas de pesca que não são confeccionadas com estes tipos de fibras ou fios, são com aramas, talo de carnaúba e taliscas de madeira especial.

6.3 Emprego das artes de pesca

Praticamente as pescarias comerciais e/ou artificiais se realizam em cursos médio, baixo e ainda também se efetuam operações de pesca em algumas áreas do curso superior do rio. Nas represas e nos açudes de grandes e médias capacidades são practicadas em áreas piscosas.

Várias são as artes de pesca utilizadas pelos pescadores, principalmente ra região nordestina onde a condição econômica tem limitada o avanço tecnológico.

Os utensílios de pesca são escolhidos conforme as condições particulares de cada coleção d'água e também conforme os meios dos pescadores.

6.3.1 As redes de arrasto e de espera

As redes de espera, de emalhar, galão ou engancho são feitas de uma panagem retangular cujo comprimento pode variar de 20 e 30 metros ou até mesmo 100 metros e cuja altura é de 1 a 3 metros. A panagem é estendida entre duas linhas ou cordões: uma linha superior munida de flutuadores e uma inferior, com um lastro ou chumbada. Graças aos flutuadores e ao lastro, a panagem mantém-se verticalmente na água. Os peixes ficam emalhados pelo opérculo e sem possibilidade de escapar. Não obstante, muitos peixes são capturados por ficar emalhados pela parte central do corpo e outros porque o fio da rede se envolve com osso maxilar ou com os dentes.

As redes em que os peixes ficam emalhados têm tamanho de malhas que variam segundo a classe de peixe que se quer capturar. As que são mais comumente utilizadas tem entre 3 e 6 cm de nó a nó. Estas são fabricadas de fio fino, geralmente de polietileno. Quanto mais fino for o fio, mais peixe apanha a rede, mas, em contrapartida, ela estraga-se mais rapidamente. O relacionamento entre os flutuadores e as chumbadas podem permitir três posições da rede: próximo a superfície, à meia-água e no fundo. Estas redes são geralmente lançadas à noite e recolhidas de manhã, porque apanham muito mais peixe de noite do que de dia.

As redes de arrasto, contrariamente às redes de malha, que são lançadas num local fixo, as redes de arrasto são redes que se puxam.

São constituídas por uma panagem cujo comprimento pode atingir 200 a 300 metros e cuja largura, compreendida entre 1 e 8 ou 10 metros, é geralmente maior na parte central do que nas extremidades. Para pescar nas reservas de águas superficiais, podem utilizar-se redes de arrasto de um comprimento compreendido entre 50 e 150 metros, com uma largura de 2 a 6 metros. O bordo superior da panagem é constituído por uma linha munida de uma chumbada ou lastro. Nas extremidades da panagem, as linhas estão ligadas a cordas de tração. Geralmente é conveniente usar malhas de 3 a 6 cm de nó a nó, que devem ser menores na parte central.

Para ser lançada, a rede é posta num barco e dobrada da mesma maneira que uma rede de malha. O barco parte do ponto A, onde fica o pescador, que segura a extremidade de um dos cabos de tração. O barco descreve um arco de círculo imergindo pouco a pouco a rede na água.

Volta à margem no ponto D com a extremidade de um outro cabo de tração. Os pescadores puxam os cabos em A e D caminhando ao encontro uns dos outros ao longo da margem.

Quando as extremidades da rede chegam à margem, um dos pescadores puxa a linha inferior enquanto os outros seguram a linha superior, prestando atenção para não puxarem mais depressa de um lado que do outro. Quando a rede chegar quase à margem, os peixes têm tendência a saltar para escaparem, deve então levantar-se a linha superior acima da água.

6.3.2 As tarrafas

É um aparelho simples e prático para captura de peixes. Sua forma é cônica, sendo confeccionada com linha de “nylon” 0,20 mm ou seja, linha 20. A malhagem é variável, sendo a mais usada a de 50 mm, tal como na rede de espera, é medida entre dois nós. Para permitir uma perfeita utilização, na extremidade do fechamento do cone é colocado um cordel de grande comprimento, o qual ficará preso à mão do pescador. A extremidade oposta é livre e bem circular e dotada de saco. Neste local é colocada a chumbada o que permitirá a descida rápida do aparelho e em forma de círculo, para aprisionar os peixes.

Nos açudes do Nordeste o limite médio encontrado das tarrafas são de 2,0 a 2,7 metros, e malhas de 50 mm. As tarrafas, são tão conhecidas em toda parte, são naturalmente utilizáveis em todas coleções d'água.

6.3.3 As linhas e anzóis

Apesar de que estes tipos de artes são de grande utilidade em suas distintas formas na pesca moderna, sua origem é muito antiga, como já foi dito acima, tem sido provavelmente usadas por todos os povos primitivos.

Vários são os aparelhos em que se usam anzóis iscados. Constam, essencialmente, de um ou de vários anzóis unidos a diversos dispositivos e que atraem os peixes por meio de iscas colocadas nos anzóis. A linha de mão é um instrumento desta classe e está constituída por um fio ao qual se une um ou vários anzóis iscados. Neste caso se usam linhas secundárias a partir da linha principal, colocando-se, nas extremidades daquelas os anzóis iscados; na extremidade da linha principal se faz necessário. Geralmente se emprega este tipo de arte para captura de espécies de fundo, que vivem sobre as rochas ou em bancos de corais, nos quais é difícil a utilização de espinhéis de anzóis que fiquem em contato com o fundo.

É comum em nossos açudes os pescadores usarem a linha solta, e outra modalidade também que é o caniço, o qual consta de uma simples estrutura (vara) de bambú e/ou outro material que em uma de sua extremidade tem uma linha, com uma pequena chumbada e em seguida o anzol. Esta arte é usada tanto em embarcações como nas margens, a pé.

6.3.4 Espinhel de anzóis

É uma aparelho de pesca muito simples, muito usado nos açudes do Nordeste brasileiro, podem ser considerados como uma modificação do tipo anterior, no qual a linha principal se mantém horizontalmente. Na pesca com este tipo de arte há necessidade do uso de âncoras ou pedras que se colocam flutuadores em conexão com a linha principal. Via de regra, o flutuador está provido de uma ou mais bandeirola ou mesmo lanternas, isto em alguns casos, para facilitar a localização. A distância entre uma linha secundária e outra, deve ser suficiente grande para evitar o entralaçamento de anzóis uns com os outros. O comprimento da linha principal é em consequência do número de anzóis, pode ser até de quilômetros e de centenas de anzóis e neste caso há necessidade de se usar um maior número de flutuadores e âncoras. Existe uma grande variedade de tipos de espinhéis de anzóis dentre os que operam acerca da superfície, à meia água e no fundo.

Existem os espinhéis mais simples que são constituídos da linha principal de “nylon” no 120 e seu comprimento varia em torno de 100 a 200 metros, a qual fica presa nas duas extremidades. Desta linha, partem as secundárias de menor diâmetro e de comprimento entre 70 a 90 cm e na extremidade são encastoadas com arames e um pedaço de borracha de câmara de ar para evitar que o peixe fisgado corte a linha. A distância de uma linha secundária e a outra é de aproximadamente entre 1,6 a 2,0 metros. O anzol a ser colocado varia de número e de acordo com o tipo de peixe a ser capturado, assim como a isca.

A pescaria com o aludido aparelho é iniciado no começo da noite e retirado na manhã do dia seguinte, igualmente como se faz com a rede de emalhar.

6.3.5 Covos

O objetivo final destes tipos de arte de pesca consiste em colocar o peixe em situação tal que não seja possível escapar ou cujas saídas não seja facilmente praticável. Entre estes tipos de artes se encontram os covos, os currais-de-pesca, as “almadobras” e as barreiras e/ou tapagens.

Os covos são pequenas armadilhas de grande variedade: retangular, semi-cilíndricas; pode ser construído de madeira, arame, fio de “nylon” e/ou de algodão e taliscas de madeira, facilmente transportável, nas quais os animais entram através de uma abertura. Podem estar providos ou não de iscas. Geralmente são utilizados para capturas de lagostas, camarões, caranguejos, sirís e peixes de fundo. Aparelhos deste tipo são os empregados na pesca de lagosta no Nordeste brasileiro.

6.3.6 Choque

É um tipo de aparelho de pesca, considerado como armadilha. A sua estrutura é de característica cilíndricacônica, cujas as extremidades são abertas e de diâmetros bem diferentes. Na sua confecção utiliza-se taliscas de madeira com comprimento de 50 cm de altura; elas são amarradas em terreno com duas argolas de madeira sendo uma com 40 cm de diâmetro e a outra com 20 cm; amarração pode ser feita com linha de “nylon” ou outro material resistente.

Este aparelho é usado em águas rasa dos lagos e açudes os pescadores vão margeando e introduzindo na água o aparelho até encontrar-se com o solo, a fim de apreender peixes ali existentes. No Nordeste é usado muito para a pesca da traíra, Hoplias malabaricus.
A despesca é realizada pelo pescador, introduzindo seu braço na parte superior do aparelho e procura capturar o peixe com a mão dentro do mesmo.

6.3.7 Bóia ou poita

Este tipo de aparelho de pesca é usado por pescadores em toda a região nordestina, e também usado em águas mais ou menos rasas em açudes, lagos e lagoas.

A bóia ou poita é composta de uma linha de “nylon” de número variando entre 30 a 50, o comprimento pode ser de 1 a 2 metros de conformidade com a profundidade da água e do sistema do pescador.

O número do anzol pode variar dependendo da espécie de peixe preferido pelo pescador, atualmente, para traíra, H. malabaricus, os mais usados são, 7,8 e 9, aliás esta arte de pesca é mais usada para esta espécie.

O flutuador é a cabeça do talo da carnaubeira, Copernia cerifera. O pescador fabrica de 50 a 100 bóias e sua colocação é feita de canoa distribuindo em áreas de sua preferência e já conhecidas. A colocação é feita pelo fim da tarde e a despesca pela manhã do dia seguinte, de preferência ao amanhecer. A captura é muito difícil porque quando o peixe está fisgado ele se desloca para o outro local então a bóia acompanha-o e muitas vezes o pescador vai encontrá-la em locais mais distantes, entre vegetação aquática ou mesmo entre garranchos.

6.3.8 Arpão e espingarda-arpão

É um procedimento de pesca com o qual os peixes são atravessados por pontas aguçadas.

Pode-se empregar somente quando os peixes que se quer capturar sejam perfeitamente visíveis.

O arpão, a lança, etc., são artes de pesca muito antigas e que se utilizam especialmente quando os peixes de grande tamanho se concentram em uma pequena zona. Estão constituídas por uma cabeça de metal com uma ou várias puas geralmente barbadas e um cabo que varia de 1 a 2 metros de comprimeto e um diâmetro de 1 1/2". A cabeça deve estar unida ao cabo por uma pequena corda, cuja extremidade deve ser mantida em mãos do pescador e serve para puxar o pescado capturado.

Para ser usado este tipo de aparelho de pesca é necessário uma canoa e dois pescadors, um remando lentamente no local destinado a pescaria e o outro em pé, na proa do canoa, com o arpão olhando constantemente para ver a hora em que o peixe vem a superfície, neste momento ele lança o arpão. É muito empregada esta modalidade de pesca em todos os açudes do Nordeste brasileiro, principalmente na captura do pirarucu, Arapaima gigas. A espingarda-arpão obedece a mesma técnica do arpão, apenas é utilizado uma espingarda de calibre 36 mm, na qual se põe uma lança de ferro dentro do cano e abaixo da cabeça da lança é colocado uma bóia e mais abaixo uma corda e sua extremidade fica ligada a canoa do pescador. Esta arte de pesca foi idealizada por um guarda de pesca, Sr. Manoel Bezerra da Silva, do açude Público “Boqueirão de Piranhas” no Estado da Paraíba.

6.3.9 Descarga elétrica

Este método de pesca tem sido utilizado durante algum tempo, principamente para fins de investigação, porém, não se tem empregado com fins comerciais. No entanto, na atualidade, já existem artes como os arrastos, aos quais são atrelados aparelhos que utilizam para esta finalidade.

6.3.10 A pesca de batido: técnica, vantagens e efeitos prejudiciais

A pesca de batido tem uma finalidade de capturar mais peixe através dos ruídos ou sons, os quais afugentam os peixes em direção as redes de emalhar.

A técnica usada é com vara grande em que na canoa, depois de lançar a rede na água, um pescador rema a canoa e o outro na proa faz o batido da vara na água, com bastante força pode ser usado também dois pequenos paus (porretes) que batem na parte superior do bordo da canoa; também com duas pedras o pescador emerge suas mãos com as pedras e faz o som embaixo da água o qual vai diretamente através das ondas sonoras para o ouvido do peixe (otolitos) pelo sistema nervoso e finalmente amarram várias latas em uma corda, na popa da canoa e saem fazendo barulho. Esta técnica faz com que os peixes afugentados corram para as malhas das redes fazendo grandes colheitas de pescado durante um dia de pescaria. Tendo assim vantagens e lucros nesta modalidde de pescaria.

No entanto, o batido traz grandes prejuízos aos pescadores profissionais, devido aos peixes terem se acostumado com estes sons e não mais procuram as redes e sim esconder-se entre as vegetações aquáticas, flutuantes emersas e rochedos para não serem capturados.

6.4 Embarcações pesqueiras: tipos e usos

A embarcação usualmente empregada nos açudes do Nordeste brasileiro é canoa a remo. É feita de madeira denominada “pau branco”, Auxema oncocalyx Taub., e tem geralmente comprimento que varia de 3,0 a 4,5 metros; os remos são também de madeira e o tamanho variando de 1,5 a 2,0 metros. O valor de tal embarcação depende de sua dimensão e do tipo de madeira empregada na sua construção, dependendo disso a vida útil gira em torno de três ou mais anos.

As canoas são de dois tipos, fundo chato e de caverna, são embarcações comuns nos açudes em toda a região nordestina, servem como meio de transporte do pescador no seu local de trabalho às pescarias, é também usada, nos dias de feira para transportar sua pequena produção de pescado ou de alguns cereais, legumes e/ou mesmo pequenos animais.

Fonte: José Oriani Farias

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