Conselho suspende veterinárias por tratarem cães com leishmaniose!

As veterinárias Ana Karinne Paiva e Fátima Ferreira foram impedidas nesta segunda-feira (18), pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Ceará (CRMV-CE) de exercerem a profissão por 60 dias. O fato aconteceu devido as profissionais darem uma chance de tratamento a animais infectados por leishmaniose visceral, doença popularmente conhecida como calazar.

A leishmaniose visceral, é uma doença vetorial, infecciosa, mas não contagiosa. É bastante complexa, causada aproximadamente por 20 espécies diferentes do gênero Leishmania, protozoário parasita pertencente à família Trypanosomatidae, o mais conhecido deles é o mosquito palha/flebotomineo. Em determinadas circunstâncias, pode levar a morte do paciente, e pela dificuldade do seu controle, especialmente em algumas regiões, se constitui num dos maiores desafios da clínica veterinária e da saúde coletiva na atualidade. É um problema que tem gerado muita polêmica, uma vez que no passado, acreditava-se que a eutanásia nos cães vitimados pelo mosquito era a solução contra a disseminação da doença.

O presidente do CRMV-CE, Célio Pires Garcia, afirma que o órgão cumpriu normas e legislações federais que determinam a morte do animal. Segundo ele o órgão condena o tratamento da leishmaniose visceral canina, reforçando que o profissional que insiste na prática fere o código de ética e desrespeita o decreto 51.838, de 1963, que determina a “eliminação dos animais domésticos doentes”.

O Brasil é o único país no mundo que torna obrigatória a morte induzida de animais positivos para a doença. Esses países descobriram que simplesmente diminuir o número de cachorros, pela eliminação, os flebótonos (mosquitos) passaram a procurar sangue humano para repasto, aumentando os casos humanos da doenças nessas regiões. Alerta o médico veterinário, Ricardo Henz, da Clínica São Francisco.

De acordo com ele, não existe uma cura parasi-tológica, ou seja, o parasita ficará para sempre tanto no organismo do homem quanto no do cão. Mas o tratamento para leishmaniose, tanto humana quanto canina, apresenta algumas similaridades. Como a cura clínica (o humano ou o cão não apresentam sinais da doença) e a cura epidemiológica (o humano ou o cão não são mais transmissores da doença, porém o cão é mais suscetível e, portanto, pode ter muitas recaídas).

A veterinária Raisa flores é outra defensora do tratamento nos animais. Aos 13 anos de idade viu seu cachorro sendo levado pelo Centro de Controle de Zoonoses (CCZ). “Eu tenho esse dia como se fosse ontem. A forma brutal que a levaram, arrastando minha gigante no chão… Levando até o caminhão, suspendendo ela pelo pescoço e jogando como se fosse um lixo. Fiquei doente, e chorei por quase um ano”, relembra.

Desde então, ela passou a ajudar uma Organização Não Governamental (ONG) de animais chamada Abrigo dos Bichos, onde conheceu um homem chamado André Fonseca, que passava umas dietas bem diferentes para os animais do abrigo. “Quando entrei na faculdade de veterinária, tomei conhecimento quem de fato era aquele homem. Ele foi o criador do tratamento mais barato para leishmaniose e os testes ele fazia neste abrigo, os animais que recolhiam eram em sua maioria calazar positivos”, pontua. A partir daquele momento, Raisa se envolveu profundamente com a doença. “Prometi a mim mesma que descobriria a verdade em relação ao calazar. Estudei a forma que o protozoário contamina, como vive, quanto tempo… Bem como os exames, tratamento e etc. Inclusive já tratei diversos animais com a doença, sempre obtendo excelentes resultados”

A ativista Stefanie Rodrigues adotou um cão diagnosticado com a doença há 14 anos. Para ela, o tratamento deu certo e seu cão nunca teve recaída. “Meu cachorro era bem debilitado, mas o tratamento sempre surtiu efeito. Com um pouco de investimento e muito carinho ele foi se recuperando”, afirmou.

A cirurgiã dentista Valdinha Facó também tem uma cadela tratada, que apresentou cura clínica desde 2013. “Resgatei a Pretinha em 2011, uma linda SRD e logo descobri que tinha leishmaniose. Tratei com alopurinol até conseguir o Milteforan (medicação usada para tratamento da leishmaniose na Europa, mas que é proibido no Brasil). Em 2012 ela tomou o Milteforan e continuei o alopurinol e desde 2013 que o exame dela está negativo. Estou esperando o veterinário dela chegar de viagem para repetir o exame esse ano”, confirma.

A veterinária Karinne Paiva se manifestou através das redes sociais, mostrando sua indignação sobre a decisão do CRMV e que irá recorrer, pois seu dever como médica veterinária é ajudar os animais, principalmente se os tutores desejam que eles sejam cuidados. “Estou com a consciência bem tranquila de que isso veio para fazer com que as pessoas repensem. A matança não é a solução, temos que dispor de alternativas”, disse.

Vale lembrar que já existe jurisprudência no Brasil permitindo o tratamento. Diversas ações ganharam o direito de tratar cães com leishmaniose, uma delas foi uma Ação Civil Pública impetrada por uma organização protetora de animais em Mato Grosso do Sul, em que a mesma conseguiu autorização para o tratamento de cães com leishmaniose.

A advogada Águida Sá defende a tese que os médicos veterinários particulares sequer seriam obrigados a cumprir a determinação da portaria interministerial, porque este instrumento deve ser cumprido somente por servidores subordinados ao órgão que o expediu.

Então, se já houver um animal infectado em sua casa, não fique preocupado! O tratamento, a utilização de repelentes, uso de coleiras repelentes, como a scalibur e demais cuidados indicados por um profissional no cão infectado com leishmaniose não o tornam um risco para sua família ou vizinhos, inclusive ele pode obter à cura clínica (sem sintomas da doença) ou à cura epidemiológica (não transmissor da doença).

E lembre-se: você não é obrigado, de forma alguma, a entregar seu animal aos fiscais da saúde pública. Se algum funcionário de qualquer órgão te constranger e ameaçar para que entregue o cão, não deixe de anotar o nome da pessoa para formular uma ocorrência policial por abuso de autoridade e/ou constrangimento ilegal.

Fonte: ANDA