Os animais pensam e sentem. Como é a mente e a psique deles? Palestra.

Carl Safina é ecologista e escritor especializado na exploração das dimensões morais e sociais do nosso relacionamento com a natureza.

Explora também o modo como os oceanos estão mudando e o que essas mudanças significam para a humanidade e para a vida selvagem.

Safina é autor de vários livros, inclusive Song for the Blue Ocean (Canção para o Oceano Azul), que o New York Times agraciou com o prêmio Livro Notável do Ano. Ele é o fundador e presidente do The Safina Center na Universidade Stony Brook.

Seu último livro, Beyond Words: What Animals Think And Feel (Para além das palavras: O que os animais pensam e sentem), explora a vida interior dos animais.

Vídeo: Palestra de Carl Safina no TED

Tradução integral da palestra de Carl Safina:

Vocês já se perguntaram o que os animais pensam e sentem? Vamos começar com uma pergunta:  será que minha cadela realmente me ama, ou será que só quer um biscoito? Bem, é fácil perceber que nosso cão realmente nos adora, fácil de perceber o que se passa naquela cabecinha peluda. O que se passa? Algo se passa.

Mas por que a pergunta é sempre: “Será que eles nos amam?” Por que tem sempre que ver com a gente? Por que somos tão narcisistas? Descobri uma pergunta diferente para fazer aos animais. “Quem são vocês?”

Há habilidades da mente humana que tendemos a achar que são habilidades apenas da mente humana, mas será que isso é verdade? O que os outros seres fazem com seus cérebros? O que será que eles pensam e sentem? Existe um jeito de sabermos? Acho que existe. Acho que existem vários jeitos. Podemos observar a evolução, observar o cérebro deles e podemos observar o que eles fazem.

A primeira coisa que devemos lembrar é que o nosso cérebro é uma herança. Os primeiros neurônios surgiram nas águas-vivas. As águas-vivas deram origem aos primeiros cordados. Os primeiros cordados deram origem aos primeiros vertebrados. Os vertebrados deixaram o oceano, e aqui estamos nós. Mesmo assim, é verdade que um neurônio, uma célula nervosa, é igual num lagostim, num pássaro ou em nós. O que isso diz a respeito da mente dos lagostins? Podemos saber algo sobre isso? Bem, se dermos vários pequenos choques elétricos em um lagostim, toda vez em que ele tentar sair de sua toca, ele desenvolverá ansiedade. Se dermos ao lagostim o mesmo medicamento usado para tratar o transtorno de ansiedade em humanos, o lagostim vai relaxar, sair da toca e explorar o lado de fora. Como mostrar o quanto nos importamos com a ansiedade dos lagostins? Normalmente, os cozinhamos.

Os polvos utilizam ferramentas tal como a maioria dos macacos, e reconhecem rostos humanos. Como celebramos a inteligência parecida com a de um macaco neste invertebrado? Cozinhando-o, basicamente. Se uma garoupa persegue um peixe numa fenda dentro de um coral, ela às vezes vai até onde sabe que uma enguia está dormindo e envia um sinal à moreia, dizendo: “Siga-me”, e a moreia entenderá o sinal. A moreia talvez entre na abertura e pegue o peixe, mas quem sabe o peixe tente fugir e a garoupa o pegue. Essa é uma parceria antiga que descobrimos bem recentemente. Como celebramos essa antiga parceria? Fritando-a, basicamente. Um padrão está surgindo e ele mostra muito mais sobre nós do que sobre eles.

As lontras-do-mar utilizam ferramentas para quebrar conchas de moluscos e param um pouco seus afazeres para mostrar a seus filhotes como fazer isso, e chamamos isso de “ensinar”. Os chimpanzés não ensinam. As orcas ensinam e compartilham alimento.

Quando a evolução cria algo novo, ela usa “peças que já existem em estoque”, “pegando-as da estante”, antes de gerar uma mudança. E o nosso cérebro surgiu através da enormidade do profundo passar do tempo. Se compararmos o cérebro humano ao de um chimpanzé, vemos que o que temos, basicamente, é um grande cérebro de chimpanzé. É bom que o nosso seja maior, porque também somos bem inseguros.

Mas, opa, existe um golfinho, com um cérebro maior, com mais convoluções. Talvez vocês estejam pensando: “Tudo bem, vemos cérebros, mas o que isso tem a ver com mentes?” Bem, podemos ver o trabalho da mente através da lógica dos comportamentos. Então, podemos ver que, obviamente, esses elefantes estão descansando. Eles encontraram uma pequena sombra debaixo das palmeiras, onde podem deixar seus filhotes dormir e onde podem cochilar, mas continuar vigilantes. Essa imagem faz todo sentido para nós, assim como o que eles estão fazendo faz total sentido para eles porque, sob o mesmo sol, nas mesmas planícies, ouvindo o uivar dos mesmos perigos, eles se tornaram o que são e nós nos tornamos o que somos.

Somos vizinhos há muito tempo. Ninguém pensaria que esses elefantes estão relaxando. Eles estão claramente muito preocupados com algo. O que os preocupa? Ocorre que, se gravarmos as vozes de turistas, e tocarmos essa gravação usando um alto-falante escondido em arbustos, os elefantes vão ignorá-la, porque turistas nunca incomodam elefantes, mas se gravarmos as vozes de pastores que carregam lanças e geralmente machucam elefantes em disputas por poças d’água, os elefantes vão se juntar e fugir do alto-falante escondido. Os elefantes sabem não só que existem humanos, mas sabem que existem diferentes tipos de humanos, e que alguns deles são tranquilos e que alguns são perigosos.

Eles nos observam há muito mais tempo do que nós os observamos. Eles nos conhecem melhor do que nós os conhecemos. Temos as mesmas prioridades: cuidar dos nossos filhotes, encontrar alimento, permanecer vivos. Sejamos nós programados para andar pelas colinas da África ou para mergulhar ao fundo do mar, somos basicamente iguais. Somos iguais debaixo da pele. O elefante tem o mesmo esqueleto e a orca tem o mesmo esqueleto que nós temos. Vemos ajuda onde ela é necessária. Vemos curiosidade nos jovens. Vemos os laços familiares. Reconhecemos o afeto. Cortejo é cortejo. E aí, nos perguntamos: “Eles têm consciência?”

Quando recebemos anestesia geral, ficamos inconscientes, o que significa que não sentimos nada. A consciência é simplesmente aquilo que nos permite sentir as coisas. Se vemos, ouvimos, sentimos, se percebemos o que quer que seja, temos consciência, e eles têm consciência.

Algumas pessoas dizem: “Bem, há algumas coisas que nos tornam humanos, e uma dessas coisas é a empatia.” Empatia é a capacidade mental de sentirmos o mesmo que nossos semelhantes. É algo muito útil. Se nossos companheiros começam a andar rapidamente, precisamos perceber que temos de nos apressar. Estamos todos com pressa agora. A forma mais antiga de empatia é o medo contagioso. Se nossos companheiros de repente se assustam e fogem, não vai ser bom para nós parar e pensar: “Puxa, por que será que todos se foram?”

A empatia é antiga, mas a empatia, como qualquer outra coisa na vida, vem em uma escala ascendente e tem uma elaboração. Então, existe a empatia básica: você fica triste, eu fico triste. Vejo você feliz, eu fico feliz.

E existe algo que chamo de “condolência”, que é um pouco mais distante: “Lamento saber que sua avó acaba de falecer. Não sinto a mesma tristeza, mas a compreendo, sei o que você sente e me preocupo com você.”

Então, se formos motivados a agir por condolência, chamo isso de compaixão.

Longe de ser aquilo que nos torna humanos, a empatia humana está longe de ser perfeita. Nós encurralamos criaturas empáticas, as matamos e as comemos. Bem, talvez você diga: “Certo, mas são espécies diferentes. É apenas predação e os humanos são predadores”, mas também não tratamos nossa própria espécie muito bem. Pessoas que parecem conhecer só uma coisa sobre comportamento animal, sabem que jamais se deve atribuir pensamentos e emoções humanas a outras espécies. Bem, acho isso uma bobagem, porque atribuir pensamentos e emoções humanas a outras espécies é a melhor tentativa de saber o que eles estão fazendo e sentindo, porque o cérebro deles é basicamente igual ao nosso, tem as mesmas estruturas que o nosso. Os mesmos hormônios que interferem em nosso humor e estímulo também agem no cérebro deles. Não é uma questão científica dizer que eles estão com fome quando caçam, que estão cansados quando ficam com a língua para fora, e aí dizer, quando eles estão brincando com seus filhotes, felizes e contentes, que não fazemos ideia se estão vivenciando algo. Isso não é científico.

Então, um repórter disse para mim: “Talvez, mas como você sabe realmente que os outros animais pensam e sentem?” Então, comecei a pesquisar as centenas de referências científicas que coloquei em meu livro e percebi que a resposta estava debaixo do meu nariz. Quando minha cadela se levanta do tapete e vem em minha direção – em direção a mim, não ao sofá – e rola no chão com a barriga para cima, ela pensou: “Quero que me façam carinho na barriga. Sei que posso ir até o Carl, e ele vai entender o que estou pedindo. Sei que posso confiar nele porque somos uma família. Ele fará isso por mim, e a sensação vai ser boa.”

Ela pensou e sentiu e a coisa é simples assim mesmo.

Mas vemos os outros animais e dizemos: “Ah, veja, são orcas lobos, elefantes; não é assim que eles agem.”

Aquele macho de barbatana alta é o L41. Ele tem 38 anos. A fêmea logo à sua esquerda é a L22. Ela tem 44 anos. Eles se conhecem há décadas, sabem exatamente quem são, sabem quem são seus amigos, sabem quem são seus rivais. A vida deles segue o curso de uma carreira. Eles sabem onde estão, o tempo todo.

Este é um elefante chamado Philo. Ele era um macho jovem. Este é ele, quatro dias depois. Os humanos não só sentem tristeza, mas também causam muita tristeza. Queremos arrancar-lhes os dentes. Por que não podemos esperar até que morram? Os elefantes se distribuíam das margens do Mar Mediterrâneo até o Cabo da Boa Esperança. Em 1980, havia enormes fortalezas onde se distribuíam os elefantes, no leste da África e na África Central. Agora, sua vastidão está fragmentada em pequenos grupos. Essa é a geografia de um animal que estamos levando à extinção, um ser vivo como nós, a criatura mais magnífica sobre a terra.

Claro, cuidamos muito melhor da vida selvagem nos Estados Unidos. No Parque Nacional de Yellowstone, matamos todos os lobos. Na verdade, matamos todos os lobos ao sul da fronteira com o Canadá, mas, no parque, guardas florestais fizeram isso em 1920 e, 60 anos depois, tiveram de trazê-los de volta, porque o número de alces havia saído do controle. E aí, vieram as pessoas. Elas vieram aos milhares para ver os lobos, os lobos mais acessíveis à observação do mundo.

Eu fui até lá e observei a incrível família de lobos. A matilha é uma família. Nela, há alguns adultos reprodutores e jovens de várias gerações. Observei a matilha mais famosa e mais estável do Parque Nacional de Yellowstone. Então, quando eles passaram pela fronteira, dois lobos adultos foram mortos, incluindo a mãe, que às vezes chamamos de fêmea-alfa. Imediatamente, os demais membros da família viraram rivais uns dos outros. Irmãs expulsaram outras irmãs. Aquela à esquerda tentou durante dias se juntar novamente à família. As outras não quiseram deixar porque tinham ciúmes dela. Ela recebia atenção demais de dois machos novos, e ela era a mais desenvolvida. Foi demais para as outras. Ela acabou vagando fora do parque e foi morta. O macho-alfa acabou sendo rejeitado por sua própria família. Como o inverno estava chegando, ele perdeu seu território, seu apoio de caça, os membros de sua família e sua fêmea.

Nós causamos muita dor a eles. O mistério é: por que eles não nos machucam mais? Esta baleia tinha acabado de comer parte de uma baleia-cinzenta com seus companheiros, que a tinham matado. Aquelas pessoas no barco não tinham nada a temer. Esta baleia é o T20. Ele tinha acabado de rasgar uma foca em três pedaços com dois companheiros. A foca pesava mais ou menos o mesmo que as pessoas no barco. Não tinham nada a temer. Elas comem focas. Por que elas não nos comem? Por que não as deixamos brincar com nossos filhos pequenos? Por que as orcas voltaram para ajudar pesquisadores numa espessa névoa, guiando-os por quilômetros até que a névoa se dissipasse e o lar dos pesquisadores estivesse logo ali, na costa? E isso já aconteceu mais de uma vez.

Nas Bahamas, há uma mulher chamada Denise Herzing. Ela estuda os golfinhos-pintados e eles a conhecem. Elas os conhece muito bem. Sabe quem são todos eles. Eles a conhecem. Reconhecem o barco de pesquisa. Sempre que ela aparece, é uma grande festa. Exceto por uma vez em que eles não quiseram se aproximar do barco, o que foi muito estranho. Ninguém sabia o que estava acontecendo até que alguém apareceu no convés e anunciou que uma das pessoas a bordo havia morrido dormindo em sua cama. Como será que os golfinhos sabiam que o coração de um dos humanos tinha parado de bater? Por que eles se importariam com isso? Por que isso os assustaria? Esses mistérios são apenas pistas de tudo o que acontece na mente dos seres que estão conosco na Terra, sobre os quais quase nem pensamos.

Num aquário na África do Sul, havia uma bebê golfinho-nariz-de-garrafa chamada Dolly. Ela estava mamando e, um dia, um cuidador parou para fumar um cigarro e ficou olhando pelo vidro da piscina dos golfinhos, fumando. A Dolly se aproximou e olhou para ele, foi novamente até sua mãe, mamou durante um ou dois minutos, voltou até a janela e soltou uma nuvem de leite que cobriu sua cabeça, como fumaça. De alguma forma, essa filhote de golfinho-nariz-de-garrafa teve a ideia de usar o leite para representar fumaça. Quando os humanos usam uma coisa para representar outra, chamamos isso de arte.

As coisas que nos tornam humanos não são aquelas que achamos que nos tornam humanos. O que nos torna humanos é que, de todas essas coisas que nossa mente e a mente deles têm, nós somos os mais extremos. Somos os animais mais compassivos, os mais violentos, os mais criativos e os mais destrutivos que já habitaram este planeta, e somos todas essas coisas misturadas. Mas não é o amor que nos torna humanos. Isso não é algo exclusivo nosso. Não somos os únicos que se importam com seus companheiros. Não somos os únicos que se importam com suas crias.

Os albatrozes normalmente voam 9,6 mil quilômetros, às vezes 16 mil, ao longo de várias semanas, para entregar uma refeição, uma grande refeição, ao filhote que os espera. Eles criam ninhos nas ilhas mais remotas do mundo, e a imagem é esta. Passar a vida de uma geração à outra é a cadeia da existência. Se isso for interrompido, tudo estará perdido. Se há algo sagrado no mundo, é isso e, nessa relação sagrada, surge o nosso lixo plástico. Todas essas aves têm plástico dentro de si agora. Este é um albatroz de seis meses de idade, prestes a criar plumas, e morreu, cheio de isqueiros vermelhos no papo.

Essa não é a relação que devemos ter com o restante do mundo, mas nós, conhecidos por termos uma mente, sequer pensamos nas consequências. Quando recebemos uma nova vida humana no mundo, damos as boas-vindas aos nossos filhos à companhia de outras criaturas. Pintamos animais nas paredes. Não pintamos telefones celulares. Não pintamos estações de trabalho. Pintamos animais para mostrar que não estamos sozinhos. Temos companhia. E cada um desses animais em cada pintura da arca de Noé, considerado digno de salvação, está em perigo mortal agora, e o dilúvio deles somos nós.

Então, começamos com uma pergunta: será que eles nos amam? Vou fazer outra pergunta: será que somos capazes de usar o que temos para nos importar a ponto de simplesmente os deixar prosseguir?

Muito obrigado.

Fonte: http://www.brasil247.com/ 

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